O brasileiro ama consumir música ao vivo. É o que aponta o relatório da PwC/Live Entertainment, que coloca o Brasil como o segundo maior mercado de shows e eventos de música do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Ainda, segundo um estudo feito pelo Mapa dos Festivais, só em 2025, o país teve 366 festivais de música realizados de norte a sul, e entre todos os meses do ano.
Nesse sentido, algumas iniciativas voltadas à produção de eventos culturais têm demonstrado um olhar antenado, não só a essa tendência de crescimento do mercado de espetáculos de música ao vivo no Brasil, mas também à adoção de estratégias do afroempreendedorismo nesse tipo de empreendimento, o que tem formado redes de circulação de cultura e renda entre criadores e artistas negros.
Mas, antes de avançarmos na nossa discussão, é preciso compreender o que quer dizer esse termo.

O que é o afroempreendedorismo?
O empresariado brasileiro é de maioria negra. De acordo com o Sebrae, cerca de 15,6 milhões de pessoas negras são donas de negócios, o que representa uma média de 52,4% do total de empreendedores no país. Apesar disso, o rendimento médio de pessoas pretas e pardas (R$ 2.236) é 46,5% menor que o de pessoas brancas.
Nesse sentido, o afroempreendedorismo surge como um modelo de negócio voltado para fazer frente a essa disparidade. Em sua tese de doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora Gleicy Mailly da Silva definiu o termo afroempreendedorismo como sendo:
“A ação de empreender protagonizada pelos indivíduos autodeclarados como negros, como uma ideologia de autoafirmação e busca por suas raízes”.
Além do pensamento de Silva, a também pesquisadora Ana Karoline Lima, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), destaca que o senso de coletividade é importante para o desenvolvimento de empreendimentos de pessoas pretas e pardas. Nesse sentido, o afroempreendedorismo surge não só como um modelo inovador para o fortalecimento de empreendedores negros, mas como um verdadeiro ecossistema de trocas. Com isso, ao trazer o pensamento do afroempreendedorismo para o mercado de eventos de música ao vivo, as produtoras favorecem a circulação cultural e de renda entre artista negros, profissionais envolvidos, além do próprio público,
O Música Aberta separou alguns desses eventos que você precisa conhecer. Confira!
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Ancestranças: mulheres negras escrevem o mundo (Salvador – BA)
Em julho, Salvador foi palco do “Ancestranças: mulheres negras escrevem o mundo”, evento que reuniu um time de cantoras formado por Karol Conká, Mariene de Castro, Mc Tha, Melly, Zezé Motta e Larissa Luz, que além de se apresentar, idealizou e dirigiu o show.
Mas, para além da excelente curadoria musical, o evento se destaca também pela contratação majoritária de profissionais negros, ato de fortalecimento da produção artística de profissionais negros na música, um dos pensamentos centrais para o afroempreendedorismo.

Festival de Arte Negra (Belo Horizonte – MG)
Em junho deste ano, o Parque Municipal de Belo Horizonte foi sede do Festival de Arte Negra (FAN), evento que contou com uma programação formada exclusivamente por artistas negros, como Paula Lima, Tássia Reis e Nação Zumbi.
Com mais de 30 anos de história, o evento promove o diálogo entre arte, empreendedorismo, ancestralidade e a cidade, através de performances, mostras, encontros formativos, debates, celebrações e ocupações artísticas.

Reggae Consciência (Manaus – AM)
O Reggae Consciência surge dentro do Circuito Reggae Amazonas, movimento cultural criado em Manaus em 2017 para fortalecer a cena reggae local e valorizar a resistência do gênero na Região Norte.
O evento acontece todo mês de novembro e une, além de muita música, feiras de empreendedores afro-amazônicos, celebrando e valorizando esse grupo por meio da arte.

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Festival Back2Black (Rio de Janeiro – RJ)
Ainda, na cidade do Rio de Janeiro, o festival Back2Black surge em 2009 como um dos pioneiros nesse mercado, celebrando a África como berço da civilização e o continente como polo de discussão política e difusor de cultura.
Na edição de 2026, o evento teve o marco de unir Brasil com França, sendo realizado em Paris, mas trazendo uma curadoria musical que valoriza artistas pretos e pardos de diferentes sonoridades brasileiras, incluindo nomes como Agnes Nunes e Gilberto Gil.

AFROPUNK Brasil (Salvador – BA)
Já o AFROPUNK Brasil promove uma rede de trocas culturais através da música. Com três edições no ano de 2026, nas cidades do Rio de Janeiro, Recife e Salvador, o festival é considerado um dos principais da cultura negra contemporânea no país, se tornando uma verdadeira plataforma de impacto cultural, social e econômico.
Na edição de Salvador em 2026, o festival vai contar com atrações como Gilberto Gil, Emicida, Criolo, AJULIACOSTA, entre outros artistas.

Ao reunir em palco apenas artistas, dançarinos, intérpretes e outros colaboradores negros, as produtoras de eventos vão além de celebrar, atuando ativamente a favor da circulação e do fortalecimento da arte de pessoas pretas e pardas, criando ecossistemas de economia criativa e verdadeiros modelos de negócio.




