A ampliação da internet e a consequente formação de uma sociedade digital no Brasil, mudou profundamente a relação entre público e música, tanto no acesso, onde as plataformas de reprodução de áudio e vídeo oferecem um cardápio de opções variadas de conteúdo, mas também nas estratégias de circulação e divulgação das gravadoras e selos musicais, onde a presença no meio digital se tornou fundamental para obras atuais, bem como as de outros períodos, aumentando a prática de digitalização de trabalhos que anteriormente só eram possíveis de serem encontrados em mídia física.
Apesar disso, a versão das canções que vão para o meio digital muitas vezes sofre uma perda severa na qualidade do áudio em comparação com a original. Isso porque, para executar em vários aparelhos digitais ao mesmo tempo e sem sobrecarregar o sistema operacional dos usuários, os arquivos de áudio dos streamings são condicionados a uma compressão, o que reduz ou exclui totalmente detalhes importantes da gravação.
Para Humberto, dono da Acústica Discos (@acusticacds), loja especializada em discos raros, localizada no coração de Belo Horizonte, é importante que o ouvinte saiba entender essas diferenças entre os dois meios.
“O vinil é mais para você ouvir em casa. Mas, o Spotify é muito bem vindo, por que ele é muito prático. Você pode usar no carro, na rua, na praia… Mas, as pessoas não podem entender que só existe o streaming. A qualidade sonora (do vinil) é outra.”

Entender que não existe só música pelos streaming é se abrir para diversos álbuns da música brasileira que permanecem na penumbra da esfera virtual, seja por erros de divulgação, problemas relacionados a direitos autorais ou até mesmo por censura. Alguns títulos guardam faixas que são verdadeiros clássicos no Brasil, mas que a obra nunca foi ouvida por completo. Já outros foram tão pioneiros em seu tempo, que marcaram o fazer musical de nomes que se tornariam referências para a nova geração.
O Música Aberta separou cinco discos da música brasileira que, apesar de não serem encontrados nos streamings, vale a pena você conhecer. Confira:
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**Disclaimer importante! As obras citadas não estão disponíveis em plataformas de streaming musical, como Spotify, Apple Music, Deezer, entre outros. No entanto, é possível ouvir os discos através de publicações feitas pelos próprios fãs no YouTube, num trabalho de resgate fundamental da obra desses artistas. Os links para os vídeos de cada álbum e seus respectivos canais em que foram publicados estão anexados junto ao texto da matéria!
5) Taiguara – Imyra, Tayra, Ipy (1974)

Abrimos a nossa lista com o artista mais censurado pela ditadura brasileira. Entre os anos de 1970 e 1974, Taiguara, um músico que ganhou notoriedade no país na era dos festivais de música, teve 48 de suas 140 composições censuradas pelos militares, além de ter dois álbuns por completos totalmente proibidos.
O primeiro deles, Let The Children Hear The Music, foi gravado durante o exílio do artista em Londres, no ano de 1974, foi proibido antes mesmo de ser lançado (os registros do projeto são considerados uma “Lost Media”). Já Imyra, Tayra, Ipy, disco lançado dois anos depois, chegou a ser lançado oficialmente, mas foi censurado e recolhido das lojas 72 horas depois.
Mas, pelo curto tempo que circulou, o projeto já conseguiu deixar sua marca na música popular brasileira. Artistas como Edu Lobo e Lenine inclusive já confessaram o impacto da obra em suas próprias discografias. E não é à toa: além dos vocais e composições únicas de Taiguara, o álbum ainda conta com a presença de mutantes como Hermeto Pascoal (flauta), Toninho Horta (violão e guitarra), Nivaldo Ornelas (saxofone), Wagner Tiso (piano).
Imyra, Tayra, Ipy é uma obra singular. E todos esses fatores o tornam uma verdadeira joia no mercado de vinis brasileiro. Na Discogs, um dos maiores sites de vendas de LPs do mundo, o álbum pode ser encontrado por quase R$ 1.000,00.
*Créditos para o canal Primalves, que faz um importante trabalho de resgate de outras obras brasileiras de fora do streaming.
4) Nara Leão – Meus Amigos São Um Barato (1977)

Em 1976, a cantora Nara Leão, que naquele tempo já era dona de uma carreira de mais de dez anos, o que rendia à artista um posicionamento claro entre o alto escalão da música brasileira, resolvia tirar finalmente do mundo das ideias um projeto bastante ambicioso. Ao lado do seu então produtor musical, Roberto Menescal, a dupla vendeu para a gravadora Philips o conceito do disco Meus Amigos São Um Barato, um LP composto apenas de duetos de Nara com lendas da música.
A cantora conta que, por conta das agendas apertadas dos convidados, havia um certo receio de que a ideia não desse certo. Isso porque, ao longo de 11 faixas, o álbum contava com as participações de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Dominguinhos, Edu Lobo, Nelson Rufino, Chico Buarque, João Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Tom Jobim
“Fazer este disco para mim foi uma alegria. Reencontro. Comigo e com os amigos. Menescal e eu já tínhamos tido vontade de fazer um disco assim, mas não acreditávamos na viabilidade do projeto. Todo mundo trabalha, viaja e está sempre ocupado. Mas resolvemos tentar dessa vez” – contou Nara, em trecho publicado no encarte do disco.
O resultado do projeto foi uma das maiores pérolas na carreira de Nara. É daqui que saíram clássicos como “João e Maria”, dueto imortal com Chico Buarque, além de “Meu Ego”, parceria com o tremendão Erasmo Carlos, “Chegando de Mansinho”, com Dominguinhos (encontro esse que resultou numa turnê entre os artistas no mesmo período) e “Fotografia”, ao lado de Tom Jobim e que renovava a o lado bossanovista da artista.
Apesar de ser um dos melhores trabalhos de Nara, a versão completa de Meus Amigos São Um Barato está de fora das plataformas de streaming, por questões de direitos autorais.
*Créditos para o Carlos Alves: Além do disco de Nara, o canal traz para o público versões completas de álbuns de Pepeu Gomes, James Taylor, entre outros artistas.
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3) Jorge Ben – On Stage (1972)

Você sabia que Jorge Ben tem um disco lançado apenas no Japão? Pois é, em um dos auges do cantor, que naquele período era a voz por trás de faixas como “Mas que Nada”, “Que Pena”, “Take Easy My Brother Charles”, “País Tropical” e tantos outros sucessos, resolveu lançar seu primeiro LP com canções gravadas ao vivo, a partir de um show feito em março de 1972 no Japão e acompanhado pelo Trio Mocotó (Nereu, Fritz, e João Parahyba).
Vendo potencial no projeto, uma vez que naquele período o público japonês tinha uma maior voracidade por discos com gravações ao vivo, a filial da Phillips no Japão financiou o show e custeou o lançamento do álbum. No entanto, por questões logísticas de distribuição, uma vez que o disco foi prensado apenas para atender aquele público em específico, Jorge Ben On Stage ficou limitado ao país Sol.
Aliás, erros na estratégia de circulação e divulgação da obra de Jorge Ben são um tema que aflige seus fãs mais de uma vez. Um caso parecido aconteceu em 1976, com o álbum “Tropical”, gravado e lançado em Londres, que trazia novos arranjos a faixas presentes em discos como “Tábua de Esmeralda” e “África Brasil”, mas que não teve uma estratégia de lançamento apropriada no Brasil, chegando tempos mais tarde e em quantidades reduzidas, se tornando um tesouro para os colecionadores de vinil.
Da mesma forma, On Stage é uma relíquia, não só para Jorge Ben, mas para a música brasileira. Tanto em qualidade, por trazer a bruta qualidade da performance do artista ao vivo, mas também em valor. No site Medusa Records, por exemplo, o LP original do projeto está disponível por R$ 9,5 mil.
Créditos para o canal Vinil Fiel: Publicado por Rafa, o canal leva ao público, em excelente qualidade sonora, discos raros e menos óbvios da música brasileira. Aqui, o destaque vai para o trabalho de disseminação da obra de Jorge Ben Jor, Tim Maia, Djavan, e outros nomes de gêneros como Jazz, MPB e Samba.
2) Tuca – Drácula I Love You (1974)

Talvez você não conheça Tuca, uma vez que, infelizmente, a artista sofreu por um apagamento de sua obra (o Música Aberta te conta mais sobre a Tuca, neste texto aqui), mas vale a pena se esmiuçar nos três discos gravados pela cantora e compositora carioca. Mas, um dos projetos singulares de sua obra é sem dúvidas Drácula I Love You, lançado pela Som Livre em 1974.
Aqui, Tuca simplesmente faz um som tão à frente de seu tempo, que ao ouvir em 2026, a sensação é de frescor absoluto. A mistura de ritmos improváveis resulta num potente trabalho. E talvez por tamanho pioneirismo, ou simplesmente por valorizar produções mais comerciais, a Som Livre parece não ter compreendido a preciosidade que guardava.
Lançado em 1974, o disco teve sua capa original censurada pela própria gravadora, que preferiu apostar em um ensaio fotográfico feito às pressas do que na arte ímpar de Jeannette Priolli, artista plástica e então companheira de Tuca, e que assinava ainda a concepção do álbum. Além disso, o selo investiu em pouquíssimas prensagens do disco, tendo sua circulação e divulgação no Brasil altamente prejudicada.
Infelizmente, esse é o último lançamento de Tuca, que morreu de forma tão precoce dois anos depois, tendo suas contribuições para a música brasileira e estrangeira, por meio de parcerias com artistas como a cantora francesa Françoise Hardy apagadas do imaginário do público. Esse apagamento só não foi concretizado pelos seus discos em mídia física, que graças ao trabalho de resgate e divulgação dos fãs, mantém vivos o legado de uma das maiores compositoras da música brasileira.
Atualmente, Drácula I Love You pode ser encontrado por até R$ 10 mil na Discogs.
*Créditos para o canal Brazilian Rare Grooves: Ao entrar no canal, você fica tentado a passar horas a fim se deliciando com tantas obras da música brasileira que dificilmente chegariam até você. Para além desse precioso trabalho de resgate, o destaque vai para a afinada curadoria de discos publicados.
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1) Carlos Walker – A Frauta de Pã (1975)

Fechamos nossa lista com uma verdadeira viagem musical. Aqui, o cantor, compositor e astrólogo, Carlos Walker, assume o papel de condutor de uma experiência sonora ímpar, carregada de uma melancolia estranhamente gostosa, onde é preciso se esforçar para encontrar obras que se assemelham com o que se escuta aqui.
A Frauta de Pã é o primeiro álbum de Walker, um então jovem cantor que havia ganhado notoriedade após vencer um festival de música na cidade de Santos, no litoral paulista, e ser praticamente apadrinhado pela pimentinha Elis Regina, que se encantou com sua voz e ofereceu ao novato contatos no meio musical.
Lançado pela gravadora RCA, o projeto acabou não repetindo o sucesso da faixa “Alfazema”, de 1974, trilha na novela “O Espigão” e que chegou a figurar entre o topo das paradas brasileiras. Ainda assim, o disco é uma verdadeira raridade da música, além de ser uma mostra prática da capacidade de produção musical que os artistas brasileiros possuem.
Por conta de sua baixa circulação na época em que foi lançado, A Frauta de Pã é um dos discos mais raros no mercado de vinis. Na loja virtual Black Hole Discos, o projeto é encontrado a partir de R$ 9,5 mil.
*Créditos para o canal Brazilian Nuggets: O canal reúne uma seleção cuidadosa de trabalhos que bebem da psicodelia brasileira, além de raridades, como o primeiro disco da cantora Rosinha de Valença, bem como outros títulos do Folk, Samba, entre outros.


