Ao escutar “EQUILIBRIVM II”, continuação do álbum de mesmo nome lançado pela cantora Anitta em 2026, uma das surpresas mais gostosas aparece na faixa “Sem Pressa”, parceria da carioca com a funkeira paulista Mc Tha. E aqui, a palavra surpresa carrega dois sentidos. O primeiro está relacionado à execução da faixa dentro do projeto completo. Sem Pressa brilha e é um dos melhores duetos da parte dois do disco, que conta ainda com outras 11 canções, com destaques para “Não Me Cutuca”, feat com Alceu Valença, além de “Sal Grosso”, ao lado do Mc KBrum.
Mas, além da qualidade do trabalho, foi surpreendente perceber um movimento de escuta apurado de Anitta, que ocupa o topo do mainstream brasileiro, ao trabalho de outros artistas que não pertencem necessariamente a essa bolha. Postura essa que revela, além de um refinado processo de curadoria e escuta da cantora e de todo seu time criativo, um movimento de reconhecimento de quem anteriormente já havia cruzado por esse caminho.
“Eu fiquei surpresa”, comentou Mc Tha, em entrevista ao Música Aberta. “Com EQUILIBRIVM, eu percebi um trabalho de continuidade de um processo que eu abri lá em 2019. O meu álbum “Rito de Passá” conseguiu abrir espaço na música Pop contemporânea de decodificar um jeito de trazer tanto a estética de terreiro, quanto falar dessa vivência de terreiro de uma forma mais pop.”
Rito de Passá, disco de estreia de Tha, é pioneiro ao incorporar temas relacionados às religiosidades de matrizes africanas dentro da cena pop da música brasileira. Lançado em 2019, a obra é resultado de um profundo processo de pesquisa musical, mesclado a elementos da própria vivência da artista, natural da Cidade Tiradentes, região da Zona Leste de São Paulo.
“É um álbum muito importante. A partir dele, a gente abriu um novo modo de se fazer Pop no Brasil e tenho certeza de que foi a partir dele que a gente conseguiu entender mais sobre esses códigos para trazer a espiritualidade nessa música Pop contemporânea.”
Sem Pressa traz uma letra que serve de lema para a vida moderna, onde muitas vezes o cotidiano faz com que sensações valiosas nos atravessem de forma rápida e sem real valor: Vou passeando devagar / Com calma pra aproveitar / Prefiro até me atrasar / Porque a vida com pressa não presta. Além de dividir os vocais com Anitta, Mc Tha assina também a composição da faixa.
“Eu achei muito generoso da Anitta me enxergar dentro desse processo dela. Nessa curadoria de artistas que ela fez. E também me dar espaço enquanto compositora. Eu sou uma artista que, além de cantar, eu componho todas as minhas músicas. Então, é um tesouro que é muito precioso poder participar de uma música, mas também escrever a letra, trazer um pouco de melodia.”
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Desde então, Mc Tha não lançou mais nenhum projeto de autorais inéditas (em 2023, a artista lançou o EP “Meu Santo É Forte” com cinco regravações de canções da cantora Alcione). Mesmo assim, Rito de Passá chega aos sete anos mantendo um frescor raro em um período onde o público tende a consumir e esquecer obras de forma voraz. “Ele é um álbum que se tornou atemporal. E sempre ele me traz mais surpresas. Sempre mais camadas são adicionadas para a vida das pessoas e para a minha”, destaca a artista.
A funkeira anunciou em suas redes sociais o início das celebrações do aniversário do projeto. A comemoração inclui uma nova prensagem do disco em vinil, pela Noize Record Club, além de duas datas do show de voz e piano “Pra cada nós um Encanto – Mc Tha e as canções do povo brasileiro”, na Casa de Francisca em São Paulo, que mescla faixas do Rito de Passá com Meu Santo É Forte.
“É muito bom você saber que tem gente querendo ouvir as coisas que você escreve. Coisas que partem de alguma observação que tive na vida. Nesses shows que fiz, fiquei muito pensativa sobre isso. Sobre o tanto de gente que sabe cantar coisas que eu escrevi e que conseguem se identificar com essa mensagem.”

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Mc Tha e Anitta compartilham trajetórias parecidas. Ambas surgiram da periferia e enxergaram o funk como um lugar de possibilidade, não só da criação artística, mas também de poder ser. Agora, as duas artistas também são ligadas pelo poderoso trabalho de incorporar a temática da fé em suas respectivas obras, em um país que a intolerância religiosa se revela de forma escancarada .
“Não acho que o Brasil está livre da intolerância religiosa. Então, penso que quanto mais forças a gente conseguir unir, quanto mais esse tema ficar comum na cabeça dos jovens, mais a gente vai conseguir ter um respiro contra a intolerância”




