ESCUTA | Feiticeiro Julião – “Mata e Montanha” (2026)

Artista mescla sonoridades de Minas e Pernambuco para construir viagem sonora em novo disco
Foto: Anderson Stevens

A década de 1970 foi um período de efervescência para a cena musical de Pernambuco. Logo no início, o pessoal do “udigrudi” (underground), movimento psicodélico pernambucano, reunia expoentes como Alceu Valença, Ave Sangria, Cátia de França, Geraldo Azevedo, Flaviola e o Bando do Sol, além da parceria entre Lula Côrtes e Zé Ramalho, estava em pleno desenvolvimento de obras que impactam, até hoje, a música brasileira. 

E aqui, renderia um texto apenas para falar de cada um dos discos, mas não podemos deixar de mencionar alguns, como os homônimos “Ave Sangria” e “Flaviola e o Bando do Sol”, além de “Quadrafônico”, “Paêbirú” e “Vinte Palavras ao Redor do Sol”

Ao mesmo tempo, Minas colocava novos sons no mapa da música brasileira. Dessa vez, recheada de um experimentalismo que conversava com a psicodélia pernambucana. Nas ruas de Belo Horizonte surgia o Clube da Esquina, com destaque para Beto Guedes e Lô Borges, que tinham na paisagem mineira a referência para criar um som singular, presente em discos como “A Página do Relâmpago Elétrico”, “Amor de Índio” e “Sol de Primavera”, sequências fenomenais de Beto Guedes, além do homônimo “Lô Borges” ou o popular disco do tênis, lançado pelo eterno poeta mineiro. 

Na mesma sede pela exploração, Tino Gomes, Charles Boavista e Ângela Linhares, faziam, em 1974, o seu manifesto musical “Grupo Raízes”, onde entoavam o orgulho de ser do norte de Minas, a partir de versos como “Eu sou fruta de norte”, mesclados a influências do sertão com o suco da psicodélia.

Nesse sentido, qualquer artista que mire em algum desses recortes sonoros é, no mínimo, ousado. Mas é justamente isso que Júlio Castilho, artista recifense que dá vida ao Feiticeiro Julião, faz em seu terceiro disco, “Mata e Montanha”. Aqui, o artista dobra a aposta e mira em referências de ambas as regiões, construindo uma viagem sonora pelos vales mineiros.

Capa do disco “Mata e Montanha”. Foto: Caramurú Baumgartner

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Ao longo de 11 faixas, “Mata e Montanha” percorre paisagens e sons de Minas, guiada, do início ao fim,  pela viola caipira do artista. O disco abre com “Montanha Moída”, faixa que faz crítica à exploração ambiental a partir da mineração. Ao lado de “Lagoa Santa“, música que explora mais o experimental e que dá um show em produção de arranjos, as faixas se destacam. Mas “Tempo Estrada” surge como uma surpresa deliciosa e é um dos pontos fortes do disco

Além de Mata e Montanha, vale a pena também explorar os outros trabalhos de Feiticeiro Julião. Em 2011, a partir do clipe da música “Vou Tirar Você (da Cara)”, parceria com Juvenil Silva, o artista surgiu na cena local recifense. A partir daí, seguiu explorando outras sonoridades. Em 2014, lança o primeiro disco, “Mácula”, projeto que revela um excelente trabalho de produção e arranjo do artista, que surpreende a cada faixa. Já em 2019, a mineiridade cruzava o caminho musical do artista e aparecia com mais clareza no segundo disco, “Feitiço de Viola”, com destaque para a faixa “Atlântida”. A viola caipira, que viria a se tornar central em Mata e Montanha, aparece com destaque logo nos primeiros versos.

Nesse sentido, Mata e Montanha é um disco que, não só casa com todo o trabalho desenvolvido por Feiticeiro Julião em mais de 15 anos de carreira, mas que também se mostra um registro necessário para a discografia versátil do artista. Somado a isso, um elemento de destaque para o disco são as parcerias musicais com diversos artistas mineiros e pernambucanos, como Maíra Matos, Flávio Boca, Ana Caixeiro, Dani Rivoli, João Myrrha, Almin Bah, Fábio Sabiá e Alexandre Baros.

Não deixe de conferir!