A música brasileira no DNA do futebol

O cancionismo que traz som e memória para o “esporte rei”

O grande Nelson Rodrigues era certeiro ao analisar o futebol enquanto fenômeno: “Eis a verdade – no Brasil, o futebol é que faz o papel da ficção.” E não é à toa: Introduzido no país no final do século XIX, a prática esportiva conquistou a massa no final da década de 1910, com a primeira grande conquista da Seleção contra o Uruguai no Campeonato Sul-americano de Futebol (atual Copa América). A vitória representou um momento de catarse da nação, após a pandemia da Gripe Espanhola. 

Com isso, a relação do Brasil com o futebol se aprofundou, ao ponto do esporte ter se tornado não só uma espécie de entidade sagrada no país, mas uma das instituições que moldam o “jeito brasileiro” de ser. Nesse sentido, o esporte passou a se relacionar de forma muito mais íntima com a economia, a política e a cultural, sendo especialmente com a música.

Logo nos anos de 1919, o mestre Pixinguinha, ao lado de Benedito Lacerda, inspirados pela conquista da Seleção contra o Uruguai, compuseram “1 x 0”, um chorinho típico, que anos mais tarde foi letrado pelo compositor mineiro Nelson Ângelo. A faixa é considerada uma das primeiras músicas feitas no país a retratar o futebol.

De lá pra cá, diferentes canções foram marcadas pelo futebol, tal qual o esporte também foi, em diversos momentos, impulsionado pela música. Para o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Celso Branco, em seu artigo que analisa a prática esportiva a partir do cancionismo brasileiro, a relação entre as duas grandes paixões nacionais é ainda mais profunda.

“A  dança, a música, o carnaval, “três coisas que o brasileiro sabe fazer”, se entrelaçam com a quarta: o Futebol […] Não se trata apenas de cantar no estádio. O  futebol brasileiro é essencialmente musical; quase podemos dizer que não existe futebol sem música.

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Na hora do torcida

Apesar de não ser resumida apenas aos gritos nos estádios durante as partidas, a presença da música nas partidas de futebol se deve muito a esse movimento dos torcedores, onde muitas vezes os cantos são resultados de apropriações de sons e ritmos nacionais. 

Os exemplos são vários: desde a clássica “Frevo da Mulher”, de Zé Ramalho, que se tornou “Arquibancada Incendeia”, hino cantado pela torcida do Flamengo. Caso similar ao de “Vitória, meu amor”, canto do Vitória que teve como referência a canção “Ara Ketu Meu Amor”, do grupo de Axé Ara Ketu. Já em alguns casos, a torcida abraça a música por completo. Como esquecer “Vou festejar”, samba de consagração da eterna Beth Carvalho, embalando a torcida do Atlético Mineiro em diferentes momentos de emoção do time, como a vitória na Libertadores de 2013 ou a volta para a série A do Brasileirão, após conquista da série B em 2006.

Beth Carvalho cantando “Vou Festejar” após conquista do Atlético-MG na série B. (Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

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Na hora da preparação

Antes mesmo da partida começar, durante a preparação, os atletas sabem que a música é uma grande aliada no preparo físico. E isso tem embasamento científico. De acordo com uma pesquisa conduzida pela Associação Americana de Psicologia (APA), ouvir música antes do jogo ajuda os atletas a estimular e regular as emoções, bem como fortalecer um senso de identidade de grupo, o que auxilia na criação de um ambiente tranquilo mesmo às vésperas de um duelo importante.

Se olharmos para a Seleção Brasileira, essa técnica é há muitos anos utilizada. O samba de Zeca Pagodinho, “Deixa a Vida Me Levar”, foi cantado e tocado pelo time responsável por trazer o penta para o Brasil em 2002. A canção chegou inclusive a ser citada pelo técnico Felipão como uma fonte de força para a Seleção.

Ivete Sangalo e a Seleção de 2002 

Logo após a conquista do penta na Copa do Mundo de 2002, a Seleção Brasileira foi a Brasília de encontro ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. O time de ouro cruzou as ruas da capital em cima de um trio elétrico comandado por Ivete Sangalo, que dominava as rádios com seu hit “Festa” e que embalaria também a conquista do mundial.

Mas, a relação de futebol e música ocorre ainda em forma de memória. É por meio de composições que registros de importantes lances, partidas, jogadores, vitórias, derrotas, entre tantos outros momentos do esporte, foram eternizados.

Em “A Taça do Mundo É Nossa”, o grupo Os Titulares do Ritmo conta como o “Esquadrão de Ouro” da Seleção Brasileira de 1958, formado por Pelé, Garrincha, Vavá, Zagallo, entre outros craques, conquistou o primeiro do Brasil na Copa do Mundo daquele ano.

Já em “70 Neles”, a musa da música brasileira Gal Costa entoa o verso “70 neles outra vez, Brasil!”, recorrendo ao sentimento de nostalgia da então última conquista do Brasil em 1970, para trazer força à Seleção de 1986, que acabou eliminada nos pênaltis pela França nas quartas de finais.

Além disso, a Copa de 2014, sediada no Brasil, pode ser toda contada pela voz de inúmeros artistas brasileiros. Nesse período, em especial, a relação de futebol e música foi ainda mais profunda, com o investimento da Federação Internacional de Futebol (FIFA) em um disco de faixas inéditas sobre a competição (com destaque para a excelente ”Tatu Bom de Bola”, na voz de Arlindo Cruz), além de outras gravações de artistas como Dream Team do Passinho, Gaby Amarantos, MC Guimê, entre outros.

Nesse sentido, a música serve como fonte de consulta para se entender a calorosa relação do Brasil com o futebol, como também para atear ainda mais fogo nessa paixão. A complexidade do ser brasileiro pode ser um pouco mais entendida a partir dos dois elementos, que, direta ou indiretamente, embalam e influenciam a sociedade.

Não deixe de conferir!