Rock Doido: movimento cultural paraense ganha força e vira destaque em festivais no Brasil

Rock Doido marcou presença no festival Sarará em BH e na Virada Cultural de SP 
Divulgação/Tatiana Laiun

“Não é apenas som. São frequências sonoras capazes de reorganizar o teu sistema molecular”

O verso inicial de “Essa Noite Eu Vou Pro Rock”, faixa que abre o último disco da cantora Gaby Amarantos, traduz bem a ideia do que é o Rock Doido, expressão que ganhou bastante popularidade em 2025, após o lançamento do último disco da  artista, “Rock Doido”. Ao longo de 22 faixas, além de um curta musical de 21 minutos, o projeto faz um mergulho na cultura popular paraense, em especial nas festas de aparelhagens típicas da região.

Mas, apesar da projeção nacional atingida no período, o termo é usado para referir ao movimento cultural originário do estado do Pará, que consiste em uma mistura de tecnologia, música e festa, resultando em uma experiência multi-sensorial frenética.

De acordo com os pesquisadores Marina Ramos Neves de Castro, Fábio Fonseca de Castro e Hans Cleyton Costa Passos, do Programa de Pós-Graduação em comunicação, Cultura e Amazônia  da Universidade Federal do Pará, a experiência do Rock Doido parte desde a sonoridade, até sensações provocadas por outros elementos presentes naquele ambiente.

“O som, a música, as luzes, as imagens formadas naquele ambiente integram-se em plasticidades promovendo uma interação sensorial conformadas, a priori, pela audição, pela visão, pelas sensações táteis do corpo através das vibrações provocadas pelo treme treme, pelas batidas das música – e, também podemos ainda evocar o odor dos corpos, das fumaças jogadas pelas máquinas, a participação efetiva do paladar, observando o consumo da cerveja nas festas, que é a bebida de principal consumo utilizada nessas festas”.

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Além da experiência festiva, o Rock Doido mobiliza ainda uma cadeia da economia criativa paraense, fortalecendo o papel da cultura em modelos de negócio rentáveis. Durante a 30ª Conferência das Partes sobre Mudança do Clima (COP 30), realizada em 2025 em Belém do Pará, foi revelado que cada evento pode mobilizar até 250 profissionais envolvidos indiretamente em processos como transporte, montagem, suporte técnico para a estrutura das festas, que inclui palcos, paredes de caixas de som, centenas de luzes de LED, telões e pirotecnia, bem como nos DJs responsáveis por fazer o show acontecer.

Mapa do Rock Doido

O Carta Maps, projeto de geojornalismo da agência Carta Amazônia, desenvolveu um mapa que destaca os locais para curtir a verdadeira experiência do Rock Doido ao redor de Belém.

O mapeamento oferece ainda opções de botecos, pontos de cultura, casas de shows e bares na capital paraense.

Veja o mapa completo aqui!


Na parte artística, o Rock Doido tem mobilizado uma interessante transformação no consumo mainstreaming nacional. Além de Gaby Amarantos – que conseguiu elevar ainda mais a qualidade estética e sonora com seu último trabalho – o movimento paraense tem dominado as redes sociais, em especial o Instagram e TikTok, através de vídeos virais e trends de dança.

Um dos áudios mais reproduzidos é “Copo de Veneno Vs Hoje Que a Santinha”, da DJ Méury, considerada uma das pioneiras na arte de se produzir tecnobrega. Só no Spotify, a gravação conta com mais de 2 milhões de plays.

Rock Doido marca presença em festivais pelo Brasil

Nesse sentido, o Rock Doido parece estar no radar de grandes festivais e eventos de música ao vivo pelo Brasil. No último final de semana, entre os dias 23 e 24 de maio, Gaby Amarantos e DJ Méury foram atrações da Virada Cultural de São Paulo. A cantora paraense apresentou na madrugada do domingo (24), no palco São João, o repertório da “Rock Doido Tour 2026”, que foi marcado por um espetáculo de cenografia, iluminação, figurinos e pirotecnia, características típicas de um Rock Doido. 

Já DJ Méury foi uma das convidadas da Aparelhagem Carabao, uma das mais famosas do Pará. A festa dominou o Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, com uma programação de 24 horas. Além do set de Méury, o  “Máximo do Marajó” contou também com as participações das cantoras Zaynara e Valéria Paiva, além dos sets de DJ Baby Plus Size e DJ Ray Tech.

DJ Méury na Virada Cultural de SP. Foto: Reprodução/Instagram @djmeuryoficial

Além disso, no mesmo final de semana, o pessoal da Gang do Eletro abriu a edição de 2026 do Festival Sarará, em Belo Horizonte. Considerados um dos atos mais importantes da música eletrônica amazonense, os artistas acumulam um repertório marcado por hits frenéticos, com destaques para as faixas “Velocidade do Eletro”, “Piripaque” e “Galera da Laje”.

A apresentação durou pouco mais de uma hora e conseguiu levar para o público mineiro um gostinho da experiência das aparelhagens paraense, entregando um dos shows mais animados da edição, que contou ainda com Psirico, Ajuliacosta, Duquesa, Luedji Luna e Alcione

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Em diversos momentos, a música feita por artistas nortistas brasileiros conquistou todo o país. Desde a presença hipnotizante de Fafá de Belém nos anos 1970, posicionando a artista no alto escalão da MPB, ao fenômeno das bandas de Calypso no início dos anos 2000, até a força do Tecnobrega, que alcançou o mercado nacional na década de 2010. 

Nesse sentido, a presença de artistas nortistas levando o Rock Doido a festivais de nível nacional representa um terreno fértil de renovação criativa para esses eventos. O movimento oferece, para além de uma sonoridade cativante, uma forma interessante de criar espetáculos de visualidades e performances em apresentações ao vivo, ação mais que necessária para o mercado brasileiro, onde, em meio a tantos eventos, parece escasso de novidades realmente empolgantes.

Se chegou até aqui, não deixe de ouvir a playlist “O Melhor do Rock Doido”, que reúne os sons mais efervescentes do movimento.

Não deixe de conferir!