ENTREVISTA | “Depois que se tocava em Minas, o Axé ganhava o Brasil”

Em entrevista ao Música Aberta, ex-produtora musical ligada a bandas como Ara Ketu e Eva afirma que Minas foi palco central para o movimento do Axé Music
Artistas do Olodum tocando para público de festival em Minas Gerais
depositphotos.com / joasouza

No início de 1985, começava a tocar nas rádios de Salvador a faixa “Fricote”, aposta do cantor Luiz Caldas para o Carnaval da capital baiana daquele ano. Produzida no icônico estúdio WR, do produtor musical Wesley Rangel, localizado no bairro da Graça, a mistura de frevo baiano, ijexá, entre outros sons, caiu nas graças do público. Em semanas, Fricote se revelou como um grande sucesso. Mas, dessa vez, o som foi além. Caldas aparecia nas paradas musicais de todo o país, programas de TV e até um videoclipe, lançado no programa Fantástico. Essa era a primeira vez que o Brasil conhecia o Axé.

Após Fricote, o domínio da Axé Music, termo utilizado pelo jornalista Hagamenon Brito para ironizar a ambição dos artistas baianos em querer levar o ritmo para outras regiões do país, não parou. Artistas como Sarajane, Bamdamel, Olodum, entre tantos outros, levavam o som da Bahia para o Brasil. Com o tempo, o movimento se tornou um dos mais potentes da história da música brasileira. 

Nesse sentido, não é surpresa que a Axé Music tenha virado um modelo de negócio rentável. Empresários, radialistas e outros profissionais ligados ao mercado fonográfico passaram a investir no movimento. Em pouco tempo, salas de centros empresariais localizadas em regiões nobres da capital baiana eram ocupadas por produtoras de Axé.

“Eu comecei no ramo da música junto com meu irmão. Ele era um grande entusiasta da música baiana”, relembra Dila Freitas, ex-produtora de bandas de Axé e irmã do empresário Manolo Pousada, um dos fundadores da “Perto da Selva”, selo responsável pela gestão de carreira de artistas como o Ara Ketu, Banda Eva, Jammil, entre outras. 

Originalmente, a equipe fazia parte do empresariado da cantora Daniela Mercury. Com o sucesso da artista nos anos 1990, a equipe baiana ficou pequena para a demanda nacional. Do encontro, no entanto, surgiu a ideia de apostar de vez no mercado. Assim, em 1994, era fundada a Perto da Selva. O escritório chegou a ser um dos maiores do gênero em toda Salvador.

Emanuelle Araújo, então vocalista da Banda Eva, após a saída de Ivete Sangalo, em vídeo promocional da Perto da Selva. Imagens: Reprodução/YouTube @eleonardoaraújo

Todavia, apesar do sucesso nacional, a Axé Music enfrentava um cenário musical de efervescência. Na década de 1990, os sons do sertanejo e do rock nacional ganhavam força através das vozes de artistas da nova geração, ao mesmo tempo que o funk carioca, bem como o pagode, assumiram forte presença nas paradas. Somado a isso, os discos de vinil e fitas cassete passavam a dar espaço para o então recém-chegado CD, que, por sua vez, facilitaria a venda pirata dos registros fonográficos.

Mas, os grandes nomes por trás do Axé já haviam se preparado para o mercado competitivo. A aposta era ampliar a presença dos artistas, não só pela divulgação, mas também pelos eventos de música. “É como se a regra fosse: o axé sai de Salvador e vai para o interior da Bahia. Daí, do interior da Bahia, o som seguia para Minas Gerais”, afirma Dila.

Com isso, uma parceria entre as produtoras da Bahia com contratantes de shows de Minas Gerais surgia como a arma secreta para manter o Axé em alta. A lógica consistia em expandir o gênero por meio da fronteira mais próxima. Em pouco tempo, o estado se tornou o principal point para os artistas do movimento.

“Os artistas da Perto da Selva sempre estavam em Minas. Lá no escritório tinha um mapa de todos os estados. E cada banda tinha um alfinete de uma cor. Então, a cada cidade que as bandas passavam, eles marcavam no mapa. No fim, quando você olhava para a região de Minas Gerais, você via alfinete de tudo que era cor”.

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Nesse cenário, surge em 1999 o festival “Axé Brasil”. Produzido pela DM Promoções, o evento tinha a proposta ousada de levar o axé da Bahia para Minas. A primeira edição aconteceu na Arena Independência, em Belo Horizonte, e contou com mais de 12 horas de shows no total, inspirado nas micaretas.

“A DM foi muito importante, pois eles abraçaram o gênero. Mas, não porque achavam “bonitinho”, mas sim porque fazia sucesso. Eles sabiam quais eram as bandas que vendiam. Ara Ketu, Banda Eva, Jammil, sempre tinham muita demanda. Então, esses artistas sempre estavam presentes no Axé Brasil”, destaca a produtora. 

Nos anos seguintes, o festival cresceu e passou a ser realizado no espaço de 80 mil m² da Esplanada do Mineirão. Além dos artistas da Perto da Selva, a parceria com as produtoras baianas era estendida. Em 15 edições, pisaram no palco do evento os principais nomes do movimento. O apelo era tanto que, na edição de 2010, o público bateu o recorde de 100 mil pessoas, consagrando o Axé Brasil como o maior evento de Axé Music de todo o país.

“Minas Gerais foi muito importante para a música baiana. Todos ali sabiam dessa importância. Depois que se tocava em Minas, as bandas iam para São Paulo. Daí, o Brasil tomava conta.”

Banda Jammil e Uma Noites, com Tuca Fernandes nos vocais, cantando Axé Minas Gerais na edição de 2010 do festival. Imagens: Reprodução/YouTube @tvfolia

Apesar do sucesso, as preferências do público foram se alterando. Já na década de 2010, o sertanejo ganhou a roupagem do universitário e passou a atrair um novo perfil de consumo. Com isso, em 2014, era realizada a última edição do Axé Brasil. No mesmo período, a DM apostou suas fichas na edição mineira do festival Villa Mix, formato importado de Goiânia.

Assim como o festival, a Axé Music também perdeu espaço, o que é uma relação natural para qualquer sonoridade. Mesmo assim, o movimento ainda permanece marcante na música brasileira, completando 40 anos de história em 2025.

“O sertanejo veio e veio muito forte, com uma grande produção por trás. Mas o Axé não morreu. Até hoje você vê as pessoas pulando atrás do trio elétrico. Veja o carnaval de Salvador, você acha que as pessoas vêm pelo quê? Atrás de música.”

Público durante a edição de 2011 do Axé Brasil. Foto: Reprodução/Mega Space

“O Axé não morreu e acho que nunca vai morrer. Porque é um movimento que vende a alegria. E quem vende alegria nunca morre”, completou Dila.

Não deixe de conferir!